União Desportiva Vilafranquense, Futebol SAD

Douglas Oliveira é o nutricionista da equipa da UD Vilafranquense. Chegou este ano ao clube por convite de um amigo próximo e refere que a experiência pelo Ribatejo tem sido muito boa. Com os ensinamentos do Flamengo, Douglas deu uma cambalhota de 360º graus à sua vida e viajou do Rio de Janeiro com destino a Vila Franca de Xira. Entre um hambúrguer ou uns legumes, o nutricionista sabe o que é melhor para a performance e rendimento dentro das quatro linhas. Às vezes, há quem não consiga resistir, mas a ementa é sempre cumprida.

– Como é o que começou esta paixão pelo mundo da nutrição?

Eu comecei a envolver-me com a nutrição quando apliquei a nutrição em mim. Eu estudava outra coisa na Universidade e comecei a estudar sobre o tema da nutrição para conseguir melhorar a minha própria versão. Foi então quando eu comecei a envolver-me muito. Sempre gostei muito de desporto. Acabei por juntar as duas áreas e apaixonei-me porque eu vi o resultado da nutrição em mim e então comecei também a querer fazer isso e ver resultados em outras pessoas. Foi aí que eu me aproximei ao mundo da nutrição.

– Em que medida é que a nutrição é importante no desporto?

A nutrição é tão importante como outras áreas no desporto. A má nutrição de um atleta leva a que seja muito difícil melhorar a performance em termos de longevidade dentro do desporto que pratica. Isso vai desde uma alimentação simples, como o pequeno-almoço, até uma suplementação mais elaborada para uma carência específica de um atleta. A nutrição é muito importante tanto para identificar problemas, como também para não deixar acontecer outros problemas. É muito melhor prevenir do que intervir depois do problema acontecer. Acho que se trata muito de não deixar cair a performance do jogador, não deixar acontecer alguns problemas de nutrição pontual. Prevenir é sempre melhor.

– Na terça-feira, celebrou-se o Dia Mundial da Água. Achas que os jogadores estão conscientes dos benefícios da hidratação?

Os jogadores aqui na UD Vilafranquense têm essa consciência. Desde o dia em que cheguei, eu abordei a importância de estar sempre hidratado. O jogador de futebol é um desidratado crónico, visto que o futebol é uma atividade física que leva muito à desidratação. Com os treinos diários e os jogos intensos, há muito maior probabilidade de desidratar. Essa própria consciência de manter a hidratação é muito importante. Este tema é muito conversado e incentivado. Os jogadores aceitam muito bem.  

– A experiência no Flamengo foi importante para o teu desenvolvimento enquanto profissional.

A minha experiência no Flamengo foi muito importante. Sem contar com a UD Vilafranquense, foi o único clube onde trabalhei. Eu comecei como estagiário e depois fui contratado como nutricionista. Estive no clube durante cinco anos. A minha formação enquanto nutricionista desportivo foi adquirida lá. A possibilidade de trabalhar com muitas pessoas, visto que trabalhei com vários atletas, diferentes treinadores, foi muito fulcral para o meu desenvolvimento. Uma pessoa tenta absorver as melhores coisas de cada um. Cada treinador, cada preparador físico, cada pessoa que passou por lá, foi acrescentando pequenas coisas. O grupo de trabalho era muito bom. Era muito próximo do preparador físico, da fisiologia e da área médica. Os preparadores físicos passavam o feedback do que queriam saber e das coisas que eram mais importantes para eles. A fisiologia também pedia dados e outras coisas. A área médica também contactava muito connosco, de forma a complementar com o que eles queriam saber dos jogadores. Envolvia muitas pessoas e muitas áreas. Depois de trabalhar com muitas pessoas, eu cresci bastante. O Flamengo teve um papel fundamental na minha formação enquanto nutricionista desportivo. Foi o meu primeiro contacto e teve bastante impacto.

– Do Rio de Janeiro para Vila Franca de Xira. Como foi dar esta “cambalhota” para Portugal? Foi desafiante?

Do Rio de Janeiro para Vila Franca de Xira. Foi mesmo uma grande cambalhota. Foi uma oportunidade que surgiu através de um amigo próximo, com que trabalhei durante muito tempo, que é o Lucas Albuquerque. Ele chegou à UD Vilafranquense e viu a necessidade de replicar e fazer o trabalho feito no Flamengo ao nível da nutrição. Surgiu a proposta e foi muito bom. É muito bom estar aqui e dar a minha ajuda no clube. Ver os resultados, ver a resposta dos jogadores e tudo acontecer ao mesmo tempo é gratificante. Foi desafiante porque é outro país e é outra cultura. É muito diferente, por exemplo, ao nível da nutrição, as pessoas estão acostumadas a comer coisas diferentes nos dois países. Tive que fazer um trabalho de pesquisa para tentar adequar as ementas e as rotinas daqui. Foi um desafio que foi colocado à minha frente, eu aceitei e tem sido uma oportunidade e experiência muito boa.

– Tens alguma história engraçada ou marcante com algum jogador relacionada com este tema?

Eu tenho uma história engraçada com um jogador. Os jogadores fazem a suplementação antes dos treinos e uma suplementação que eles tomavam era uma cápsula de Ómega 3. Todos os jogadores tomavam, só que uma vez um jogador recusou-se a tomar. Dizia que não queria e que estava com o estômago diferente. No dia seguinte, a situação voltou a repetir-se. Ele já tinha tomado algumas vezes e eu fiquei a pensar sobre o porquê de ele não querer continuar essa suplementação. Houve um dia em que fui conversar com ele para tentar perceber o porquê. E ele respondeu que não conseguia tomar porque ficava muito enjoado e o sabor era muito mau. A cápsula de Ómega 3 tem um líquido lá dentro e esse líquido tem realmente um sabor amargo, com um gosto muito forte. Ao invés de ele engolir e digerir a cápsula para absorver o sabor, ele abria a cápsula dentro da boca e engolia, achava que era assim. Depois deitava a cápsula fora e só engolia o líquido dentro da cápsula. Eu depois expliquei-lhe que estava a tomar a cápsula de forma errada e até alguns colegas de equipa começaram a brincar com ele. Era uma coisa simples, mas que ele não tinha percebido. Gerou esse momento engraçado. Ele depois voltou a tomar (risos).

– Mensagem aos jogadores que trabalham diariamente em prol do objetivo do grupo

Que continuem a fazer o seu melhor. Eu tento sempre trazer uma consciência nutricional para os jogadores e para os atletas com que trabalho, de forma que tomem decisões livres e ponderadas. É claro que eu estou aqui para ajudar, mas é importante que consigam pensar no dia-a-dia deles e na sua tomada de decisão. Eles têm algo para seguir, mas um jogador que tenha essa maturidade nutricional acaba por conseguir ter uma melhor variedade ao nível da alimentação. Quando se tem mudanças na rotina, esse tipo de jogador consegue adequar a alimentação de forma mais tranquila. Importa agora continuar o trabalho realizado até aqui e espero que eles continuem a entender o que é bom para eles e a perceber que as coisas que eu falo e que eu peço são importantes para eles. Estamos todos juntos à procura da melhor performance e dos melhores resultados. No final, acaba por ser bom para eles, acaba por ser bom para mim, para o clube e para todos os que estão envolvidos.

Março 24, 2022

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