União Desportiva Vilafranquense, Futebol SAD

António Carraça foi um dos primeiros atletas internacionais da UD Vilafranquense. O ex-jogador dos ribatejanos foi o protagonista desta semana da Palavra de União e falou sobre algumas histórias antigas. Ainda passou pela modalidade de andebol enquanto estudava no Liceu Passos Manuel, só que o olho atento de um treinador da União num torneio de futebol de salão em Vila Franca de Xira levou Carraça a um treino de captação no Campo do Cevadeiro. Foi apenas o pontapé de saída de uma carreira brilhante enquanto jogador de futebol. O sonho de António era ser médico/cirurgião, só que o desporto trilhou caminhos que o antigo atleta nunca pensou atingir e lá ficou no mundo da bola.

Como é que começou a paixão pelo futebol?

No meu tempo, a bola era o brinquedo mais usual e normal. Nasci em Vila Franca de Xira e vivi lá até aos 19 anos, altura em que casei e recebi um contrato para jogar na 1.ª Divisão. Era perfeitamente normal a bola estar presente no meu dia a dia. Aos 12 anos, fui estudar para Lisboa. Lá ia e vinha todos os dias de comboio/elétrico. Estudei em Passos Manuel e todo o tempo livre que eu tinha era para estudar e jogar. Eu vivia no Cais de Vila Franca, ou seja, tinha muito espaço para jogar à bola com os meus irmãos e amigos. Aos 14 anos, ainda joguei andebol no Passos Manuel, que na altura era uma das grandes marcas da formação de andebol em Portugal e gostava de jogar andebol. Lembro-me que aos 14 anos, foi organizado um torneio de futebol de salão no ringue do jardim de Vila Franca de Xira. Os “bairros” criavam equipas e convidaram-me para jogar num bairro de Vila Franca. Joguei e as coisas até correram bem. Tive algum destaque nesse torneio, uma vez que fui um dos melhores marcadores e até fui à Seleção do torneio. Nesse torneio, estava lá alguém da formação da União, que me convidou para fazer uns treinos à experiência. Eu falei com os meus pais e eles também acharam importante desenvolver a minha atividade desportiva em conjunto com a formação académica. Fui aprovado, fiquei e o meu pai meteu a condição das notas não baixarem na escola. Isso criou-me um estímulo para estudar mais, pois era uma coisa que eu gostava. Foi assim o meu início no futebol federado. Tive um treinador fantástico, que foi um ícone em Vila Franca. O professor “Zé Faca” era fantástico. Muitas vezes, treinávamos à noite. Vinha de Lisboa de comboio. Na altura, havia um apeadeiro mesmo ao lado do Cevadeiro (Quinta das Torres). Eu saía do comboio, treinava e depois chegava a casa já tarde. Jantava, estudava um bocadinho e noutro outro dia levantava-me às 6h para ir para o Liceu. Era uma vida normal, mas feliz porque fazia exatamente aquilo que gostava. Tinha os meus amigos, tinha a minha família. Foi uma infância fantástica. Depois foi todo um percurso muito rápido. Nesse primeiro ano joguei no juvenis, com 15 anos. No ano a seguir, passei para os juniores. Entretanto, a equipa sénior da UD Vilafranquense precisava de jogadores para um torneio de reservas, onde participavam bastantes equipas. O treinador precisava de atletas e foi buscar alguns aos juniores. Íamos jogar contra o Operário de Lisboa e o treinador meteu-me a titular e eu fiz um golo, numa partida em que acabou empatada a uma bola. No outro fim de semana, já não fui aos juniores, mas fui à equipa sénior com 16 anos. Estávamos empatados ao intervalo 0-0, ele lançou-me ao intervalo, fiz um golo e acabámos por ganhar 2-0. Depois foi uma lógica de continuidade. Nessa altura, deixei de jogar nos séniores devido ao exame de medicina desportiva. Como eu tinha apenas 16 anos, não estava apto para ir à equipa sénior porque ainda era juvenil. Então, estive que estar à espera de fazer 17 anos. A União é, sem dúvida nenhuma, o clube do meu coração e ajudou-me a formar como homem, desportista, cidadão, transmitindo valores que me têm acompanhado ao longo da vida neste meu percurso profissional.

A União foi o ponto de partida. Na vida de um jovem, como é que foi conciliar as viagens, o desporto, os estudos? Traz-lhe boas memórias?

Traz-me memórias fantásticas. Agora, os miúdos começam nas escolinhas muito cedo. Eu lembro-me quando estava na formação do SL Benfica enquanto Diretor Geral, eu criei um projeto que se chamava “O primeiro passo” e esse primeiro passo era nas escolas. Crianças com três anos começarem a desenvolver atividade, o movimento e contacto com a bola. Hoje em dia, eles começam muito cedo.  Eu iniciei tarde porque naquela altura o primeiro escalão que havia eram os juvenis. Não havia escalões mais abaixo. A relação que eu tinha com os meus colegas, a forma como o desporto e a atividade física me transmitia primeiramente o prazer de jogar futebol e, por outro lado, o desenvolvimento de outros fatores que também são muito importantes, como o saber trabalhar em equipa, o espírito de grupo, a solidariedade, o sacrifício, a organização e a concentração. Isso ajudava-me nos estudos. Esses sacrifícios que eu fazia (porque tinha tempo livre) eram recompensados pelos treinos, jogos e convívios. Ao longo desses tempos, tive treinadores que foram fundamentais para o desenvolvimento da atividade desportiva na UD Vilafranquense, não se perdia tempo com coisas nocivas e que podiam prejudicar o clube. Ao fim ao cabo, é aquilo que acontece hoje só que, atualmente, é diferente devido ao acesso que os jovens têm às coisas. Nunca me passou pela cabeça ser profissional de futebol como tenho sido ao longo destes anos. Eu queria ser médico/cirurgião. Era esse o meu projeto de vida, mas a vida direciona-se por atalhos e outros caminhos e torna-se irreversível. Aconteceu-me porque depois de jogar na União fui convocado para a Seleção de juniores. Fui internacional no jogo contra a Hungria em Aveiro. Era uma grande dificuldade ser convocado, mas tive a felicidade do selecionador nacional, José Moniz, ter ido ver um dos jogos e ter gostado de mim. Isso abriu-me algumas portas e possibilitou-me desenvolver o meu potencial e as minhas capacidades. Do ponto de vista desportivo, não há dúvidas nenhumas que se tivesse acompanhado os escalões nos tempos normais, eu nunca tinha conseguido chegar à 1.ª Liga com 20 anos. Foi exatamente passar essas etapas, isto é, jogar a 3.ª divisão (dura e complicada) com apenas. 16 anos. Eu lembro-me dos dérbis com o Alhandra e com o Alverca, onde o Campo do Cevadeiro estava cheio, o que era motivador para todos. Fui aproveitando as oportunidades que me surgiram na vida.

Já disse que a União é o clube do seu coração. Já era antes de representar a UD Vilafranquense?

Era, eu ia ver os jogos em miúdo com o meu pai. O meu pai era do CF Belenenses, mas também gostava da União. A União acompanhava-nos ao fim de semana. Víamos os juniores e a equipa sénior, ou seja, nunca me passou pela cabeça em miúdo puder jogar naquela dimensão. Tinha algum jeito quando jogava com os meus amigos, mas nunca pensei chegar onde cheguei.

Com outros craques da bola com quem costuma conviver, o que é que eles dizem quando o António diz que o seu clube é a UD Vilafranquense?

De certa forma, acho que eles têm um grande carinho, principalmente, aqueles que sempre viveram em zonas fora dos grandes clubes e dos grandes centros habitacionais. A relação que existe com esses pequenos clubes é uma relação diferente, mais intimista e de maior sacrifício. Convém não esquecer que naquele tempo vínhamos a pé muitas das vezes. Aliás, depois do treino, à noite, nós íamos a pé para casa. Fazíamos aquele percurso todo para casa a conversar. Às vezes, o treinador o Zé Faca levava dois ou três de nós a jantar, a comer um prego e com uns copos e com as caricas, ele demonstrava digamos os movimentos táticos que tínhamos que fazer enquanto jantávamos. Era uma coisa deliciosa, que eu recordo com grande saudade e com enorme emoção porque são momentos especiais. Todos eles têm uma ligação, por exemplo, quando falamos do Toni, tem uma grande ligação ao Anadia, que foi o clube onde começou. Por isso, é perfeitamente normal haver essa relação de proximidade e de sentimento com o clube onde nós começamos a desenvolver a nossa atividade e depois chegamos a outros patamares, mas onde tudo começou. E onde tudo começou é logicamente o início de todo um processo e esse início nunca, de forma nenhuma, é esquecido.

O António já disse também que foi um dos primeiros internacionais da União. Como é que foi para si na altura, visto que tinha poucos anos de futebol, vestir as cores da Seleção Nacional?

Para mim, foi uma enorme honra e um enorme orgulho, até porque vinha de um pequeníssimo clube da terceira divisão. Quando era confrontado com os meus colegas de Seleção – Chalana, Zé Luís, Freire, Zé Manuel Delgado, Araújo, Cerdeira, Diamantino, entre outros – onde quase todos eram jogadores que representavam o Benfica, Sporting, Porto, Vitória de Setúbal, ou seja, clubes da 1.ª Liga. Eu era um jogador que vinha do Vilafranquense, mas, para mim, foi uma enorme honra, um orgulho muito grande. Representar a Seleção Nacional enquanto jogava no clube da minha terra, o Vilafranquense, ainda me dava mais motivos para ser mais sério, mais competente, mais profissional, para demonstrar que mesmo nos pequenos clubes, havia jogadores bons e que poderiam aspirar a outros patamares. Quando acreditámos, quando trabalhamos muito, podemos atingir exatamente esses patamares.

O António ainda costuma acompanhar de perto os jogos da União?

Acompanho, acompanho sempre que é possível e vejo quase sempre na televisão. Em tempos, também acompanhei alguns jogos ao vivo. Eu tenho ido a alguns jogos, inclusive a União foi muito gentil e muito simpática e criou um torneio de Sub-15 em meu nome, que já tem várias edições e que, para mim, logicamente, é um orgulho muito grande. Acompanho não só com interesse, mas com agrado pelo trabalho que se tem desenvolvido ao longo destes últimos anos. Ou seja, a profissionalização, o facto de aparecer alguém com capacidade financeira, com visão para desenvolver um clube que estava, digamos, numa situação complicada e difícil, é sem sombra de dúvida algo que devemos relevar. A União está claramente num bom caminho. É importante que tenhamos consciência de que a União representa uma região, representa uma cidade, representa um conjunto de pessoas que, no meu tempo, sempre teve uma enorme paixão pelo clube e pelo jogo. É importante demonstrar que é possível, com os pés bem assentes no chão, com organização, com planeamento, desenvolvendo estruturas, sensibilizando as autoridades camarárias, que têm também alguma responsabilidade no sentido de criar condições, para que o clube possa ser ainda maior e possa ir ao encontro daquilo que as pessoas esperam dele, que é propiciar não só o futebol profissional e estar nos grandes palcos das competições nacionais, mas, por outro lado, criar condições para que os jovens de Vila Franca de Xira e das cidades ao redor possam desenvolver essa atividade desportiva. É fundamental para o espírito, para a mente, para o corpo e para que eles possam exatamente ter uma atividade que lhes dá prazer e que lhes complemente a sua vida no dia-a-dia. Por isso, vejo com prazer, vejo com agrado e só espero que os projetos que estão a ser desenvolvidos se concretizem e que a União possa ter uma estrutura mais profissional, mais competente e mais alargada para atingir os seus objetivos.

Para além da convocatória à Seleção Nacional, tem alguma história engraçada ou marcante enquanto representou as cores da União?

Eu vivi um tempo em que o futebol era gerido em Vila Franca de Xira na lógica do futebol amador. Ninguém ganhava dinheiro, ou seja, depois do 25 de abril, vivia-se enormes problemas do ponto de vista social. O país estava num processo de desenvolvimento, de modernização e, tal como agora, o dinheiro não era fácil de conseguir. Então, vivia-se na era do futebol amador. Toda a gente era amadora, os jogadores, os treinadores e os dirigentes. Mas o que é certo é que, mesmo nessa altura, havia algumas situações em que tínhamos um prémio. O prémio era ir jantar todos juntos depois do jogo, em caso de derrota e de vitória. Era um jantar, um lanche, no sentido de demonstrar que valia a pena aquele esforço. Aqueles momentos eram fundamentais para que depois dentro do campo, o espírito de equipa se desenvolvesse e pudéssemos exatamente atingir os nossos objetivos, prestigiando a camisola e o clube que representávamos. Eu lembro-me que nessa altura era quase viciado também, juntamente com o meu irmão, no xadrez. Então, eu lembro-me que nessa altura os responsáveis pela União lançaram-me o repto de criar uma secção de xadrez. Criei, fui o responsável e fundador de uma secção de xadrez e organizámos o primeiro torneio de xadrez em Vila Franca. Foi uma coisa muito divertida e diferente daquilo que os clubes em Portugal estavam habituados a fazer, fundamentalmente, clubes como a União. Foram momentos e tempos fantásticos, que eu guardo com enorme saudade. Eu lembro-me nessa altura que também fomos fazer um jogo a Londres contra o Centro Português de Londres. Penso que foi a primeira vez de muitas, depois passado este tempo todo, que eu fui a Londres e que, juntamente com os meus colegas, ficámos entusiasmados com aquilo que era constatar uma realidade social diferente da nossa. Foi uma viagem também divertida. Ganhámos 5-1, eu fiz três golos. Foram tempos únicos e especiais que a minha União Desportiva Vilafranquense me proporcionou e que eu guardo no coração e na memória, com grande saudade e com grande prazer.

Peço-lhe que deixe uma mensagem para todos os sócios que continuam a apoiar o clube de semana a semana.

Quero, sem dúvida nenhuma, dar um abraço muito especial, não só a todos aqueles que fazem parte desta família unionista, mas todos aqueles que, ao longo destes 65 anos, têm desenvolvido qualquer tipo de atividade na União Desportiva Vilafranquense. Foram eles que construíram aquilo que a União representa. Um clube que está a caminho da modernidade, que está a lutar para criar condições para que o desenvolvimento do desporto profissional e o desporto de formação possa ser uma realidade em Vila Franca de Xira e na região. Todos eles que contribuíram um bocadinho, endereço o meu grande abraço. Para estes que acompanham e que fazem parte desta família, deixar uma mensagem de esperança. Que possam também eles contribuir para o engrandecimento desta instituição. É importante termos uma União Desportiva Vilafranquense forte, estruturada, com condições para que as suas responsabilidades sociais, que todos os clubes têm, possam ser concretizadas. No plano desportivo, quem tem o poder de tomar as decisões, que as tome de forma articulada, racional, com bom senso, para um dia termos, pela primeira vez, a União Desportiva Vilafranquense a competir com os grandes clubes deste país. As conquistas são difíceis de fazer, mas só se fazem com muito sacrifício, com muito trabalho, com muita perseverança, acreditando que é possível concretizarmos os nossos sonhos. Temos é que fazer com que esses sonhos se possam concretizar e só o nosso trabalho, só a nossa devoção, só o nosso compromisso é que os pode concretizar, por isso eu espero, antes de partir para a outra dimensão (risos), assistir a um União x SL Benfica, a um União x FC Porto, a um União x Sporting CP, o que me deixaria de felicidade plena.

Abril 21, 2022

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