União Desportiva Vilafranquense, Futebol SAD

Nascido e criado no Brasil, José Paulo descobriu os encantos do Ribatejo há duas épocas e meia, quando a União lhe abriu as portas. O roupeiro de 33 anos, põe agora fim a um percurso marcado por altos e baixos, mas sempre com a paixão pelo futebol em pano de fundo. Na despedida, revela estar grato ao Maior do Ribatejo e apela ao carinho dos adeptos até ao final.


Como se deu a tua vinda para Portugal?

José Paulo – Há dois anos e meio organizei-me para vir para cá, juntamente com a minha família. Lembro-me de que quando falámos em vir para Portugal a minha esposa disse para ir primeiro para ver como era e depois eu regressaria para ir buscá-las [a esposa e a filha]. Eu disse que não. Se fosse para ir, íamos todos! Se fosse para dar errado, dava para todos. Portanto foi uma coisa planeada.

E a UD Vilafranquense, como surgiu esta oportunidade?

JP – Eu costumo dizer que caí aqui de paraquedas. Na altura vi um anúncio na Internet, que não era para técnico de equipamentos, mas para qualquer função (soldar, arrumar…). Não passei nessa entrevista. Foi a uma quarta-feira, se não me engano, e na sexta-feira a Ana [Isabel Viegas, Diretora Financeira] ligou-me e disse que, se estivesse interessado, havia uma vaga para roupeiro. Eu aceitei e na segunda-feira seguinte comecei a trabalhar.

E como foram esses primeiros tempos?

JP – Os primeiros tempos foram complicados. Quando vens para um trabalho que é diferente de tudo aquilo que tu já fizeste… foi tudo um processo. Mas eu gosto de futebol. E a verdade é que para estar nesta área, não só de roupeiro, mas noutras também, tens de gostar de futebol. Senão… é mais difícil.

Descreve-nos um dia de trabalho.

JP – Assim que chego ao clube costumo arrumar os cestos para o treino dos treinadores e ponho no balneário deles. A seguir começo a montar os cestos dos jogadores e do staff. Depois começa o treino, vou para o campo com todos, ajudo a repor as bolas que saem, movo as balizas caso necessário… Sou sempre o primeiro a chegar e quase sempre o último a sair.

Quais os grandes cuidados que costumas ter no pré-jogo?

JP – Antes dos jogadores irem para estágio deixo umas caixas para eles colocarem lá as chuteiras, para que possa levá-las para o jogo. Depois começo a montar os equipamentos de jogo – toalhas, calções, meias…. Tenho sempre o cuidado de verificar os números de cada um, e basicamente é isso. Tenho de ter sempre muita concentração, porque se chegar ao jogo e faltar alguma coisa não há como voltar atrás para ir buscar. Portanto é uma responsabilidade muito grande. Mas Deus tem-me abençoado e não tem faltado nada.

Qual a maior dificuldade em todo esse processo?

JP – Não vejo assim grande dificuldade, é mesmo ter atenção e foco. Porque podes trocar uma meia de um jogador ou deixar umas cuecas de um jogador para trás…, portanto é mesmo uma questão de atenção na preparação para o jogo.

Ao longo destes anos já te cruzaste com diversos jogadores por esses estádios fora. Houve algum que te tenha marcado mais?

JP – Nesta pré-época tivemos um jogo treino com o FC Porto e eu gostei muito de conhecer o Pepe. Consegui perceber a enorme humildade que ele tem. Geralmente as pessoas quando estão em certos clubes, num nível mais acima, costumam “rejeitar” as pessoas que estão no clube mais abaixo. Mas a humildade com que ele nos foi falar, parecia que já nos conhecia de longa data. Impressionou-me!

E do Vilafranquense, algum treinador ou jogador que te tenha marcado mais?

JP – Gosto muito do treinador que temos agora, o mister Rui Borges. Chamou-me à atenção porque, desde que aqui cheguei, é o primeiro treinador que fica no mesmo balneário que os seus adjuntos. Então só o facto de ele ter chegado e ter dito que ia ficar no mesmo balneário, para mim já foi uma grande diferença. Ele tinha uma sala ao pé do escritório, e poderia simplesmente ficar lá, mas preferiu ficar junto dos seus adjuntos. Aí ganhou logo pontos comigo (sorri). Nem todos os treinadores fizeram isto, e acho que assim, como está mais perto do balneário dos jogadores, tem outra visão do que se passa.

Concentração – Uma palavra chave no trabalho de José Paulo (Foto: UD Vilafranquense, Futebol SAD)

O que tens achado deste arranque de época da União?

JP – Estamos a fazer um arranque muito positivo. Não é à toa que estamos no segundo lugar da tabela [a entrevista foi realizada quando a União estava no segundo lugar]. Sei que o futebol é isto, agora estamos no segundo lugar, mas de repente podemos ‘cair’. Mas lembro-me de épocas passadas em que estivemos muito pior. Quem está aqui há mais tempo pode confirmar o que estou a dizer. O plantel tem sido sensacional, sempre todos muito unidos. Só mesmo quem vive o balneário percebe as sensações que a equipa tem, o entusiasmo e a energia que todos têm. Ainda muita coisa pode acontecer, mas eles estão focados.

Por falar nesse espírito que se vive no balneário. Tens alguma história mais divertida que possas contar?

JP – Várias (sorri). Uma vez estava a arrumar o balneário e o Ceitil, o capitão, agarrou-me e colocou-me dentro do carrinho das compras, onde eles colocam a roupa suja, e começou a girar. Havia música, a malta estava a bater palmas, foi uma bagunça (risos).

O que é que este clube significa para ti?

JP – Eu vou levar este clube comigo para o resto da minha vida (emocionado).

Eu nunca tinha trabalhado no futebol e este clube abriu-me as portas. E vou levar muita gente. Sei quem é meu amigo, quem não é. E quem quer o meu bem. Lembro-me como se fosse hoje: o clube ia descer à terceira divisão [acabou por se manter na Liga 2 administrativamente] e o antigo Presidente do clube, o Sr. Osvaldo, pediu-me para ficar cá, na formação, independentemente do que acontecesse com o clube. Ele disse-me que iria sair, mas que mesmo assim eu iria ficar, e quem o substituísse iria chamar-me novamente para roupeiro da equipa principal. E isso marcou-me muito, porque não esperava. Porque ele podia simplesmente chegar ao pé de mim e dizer: “o clube vai descer de divisão e, a partir deste momento, não precisamos mais de ti”. Mas foi um grande gesto da parte dele. Então eu dou Graças a Deus pelo valor que o clube me deu até hoje.

Que mensagem deixas aos adeptos da União Desportiva Vilafranquense?

JP – A mensagem que eu lhes posso deixar é que continuem a apoiar. O clube e a equipa estão a crescer bastante. Sem o apoio dos adeptos ninguém vai a lado nenhum. Não é à toa que nós somos “União”. É a União que faz a força!

Foto – UD Vilafranquense, Futebol SAD

Obrigado, Zé Paulo!

Despedida | Família | José Paulo | Roupeiro
Setembro 24, 2022
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